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terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Histórias de vida nos 25 anos do ATL da Galiza!


" Sou a Yolanda Sacupima.
Neste momento estou a viver em Londres, estou no 2º ano da faculdade no curso de economia e marketing.
Em 1988 viemos de Angola para Portugal e ficamos a viver no Fim-do-Mundo. Os meus pais inscreveram-nos na escola e no ATL da Galiza (a Adriana, o Artur, a Sissi e eu).
No ATL fiquei seis anos e guardo boas recordações desta casa...são difíceis de esquecer até porque fazem parte da minha infância. Foi um tempo excepcional. Depois da escola vínhamos para o ATL onde brincávamos, fazíamos os trabalhos de casa, fazíamos actividades em grupo, jogos e também fazíamos teatro. Uma das actividades mais recentes foi quando ensaiámos a peça do “ Soldadinho de Chumbo” onde eu era o “coelho” no grupo dos bonecos da Suzete. Infelizmente nessa altura tive que ir para Inglaterra e não cheguei a estrear-me, fiquei só pelos ensaios.
Sei e ouvi dizer em Londres que o teatro correu muito bem e que as pessoas viram e gostaram muito. Esta peça deu muito nome ao ATL porque foi uma peça muito falada.
Lembro-me também de outro acontecimento passado com o ATL, onde eu fui conhecer o escritor angolano chamado Óscar Ribas. Já nessa altura ele era cego. Deu-me dois beijinhos e fez-me uma festinha na cara e isso marcou-me muito.
Durante o tempo que passei no ATL aconteceram pequenas divergências com outros miúdos visto que éramos de culturas diferentes, mas os monitores sempre nos fizeram sentir muito amados e importantes, por isso, todas as divergências foram superadas.
Fui sempre uma criança feliz, não houve grandes problemas no nosso lar.
Consegui ir sempre superando os problemas.
Eu tinha 9 anos quando fui viver com a minha família para a Inglaterra, estava numa fase para me adaptar bem à mudança de ambiente. Tive algumas dificuldades com a língua porque nunca tinha estudado inglês e também nunca tinha visto tantas pessoas de tantos diferentes países. Nos primeiros meses na escola foi um pouco difícil, mas depois tudo correu bem. Hoje eu e os meus irmãos estamos integrados em Inglaterra. É uma sociedade que dá muitas oportunidades e faz a pessoa sentir que pode concretizar aquilo que verdadeiramente quer. Os meus irmãos também estão bem e por isso somos felizes.
A Adriana é enfermeira, o Artur tirou o curso de gestão e finanças e trabalha na área de administração e gestão de casas. A Sissi é tradutora de inglês para o português e os meus irmãos mais novos - o Andrew e a Jennifer que já nasceram lá, estão na escola primária.
Pensamos ficar em Inglaterra apesar do apreço que temos por Portugal. Anualmente vamos a Portugal de férias, para matar saudades. Fazemos questão de ir sempre ao ATL porque sentimos que uma parte de nós está aqui.
Temos a dupla nacionalidade (luso-angolana) com excepção dos meus irmãos mais novos que são apenas portugueses.
A minha maneira de ser pode ter muito a ver com a cultura portuguesa, mas creio que é com a cultura inglesa que eu mais me identifico.
No fundo a minha adolescência e a minha juventude foram na Inglaterra; os meus amigos quer portugueses quer ingleses já me disseram que eu tenho mesmo o senso de humor inglês; em comparação o meu irmão Artur sabe falar perfeitamente a língua inglesa mas eles acham que eu sou mais inglesa do que ele; talvez isto tenha a ver por eu ter ido para lá mais nova do que os outros meus irmãos. Fiz lá a primária e a secundária toda. Sou feliz. "


Nota - Este testemunho foi dado pela Yolanda quando nos visitou no verão de 2004.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Cansado da rotina!




Nota – este testemunho é verdadeiro e foi vivida pelo Eddy Cassandra, cidadão de S.Tomé e Príncipe. Depois desta aventura realizada quando ele tinha 9 anos, voltou mais tarde a Portugal, tendo frequentado em 2000 o ATL da Galiza, altura em que nos deu este testemunho. Hoje trabalha, é casado e pai de uma criança.

“Tudo começou quando eu resolvi dar um rumo à minha vida.
Estava farto da rotina…
Estava em S.Tomé em casa da minha madrasta e do meu pai a viver, e calha que nunca podia passar férias com a minha mãe.
Então decidi pedir ao meu pai para ir passar férias com ela, só que o meu pai não queria me deixar ir.
Estava um amigo dele lá em casa que pediu ao meu pai para me deixar ir, mesmo assim ele não quis.
Eu supliquei para me deixar ir, o amigo do meu pai é que disse: “deixa lá o miúdo ir à mãe” e o meu pai disse “eu deixo-te mas só que não te pago o táxi”.
Foi graças ao seu amigo que me pagou o táxi que eu fui.
O meu pai vira para mim e diz: “quando é que tu voltas?” Eu disse-lhe que vinha numa terça-feira.
Era sábado quando eu fui ter com a minha mãe.
Quando lá cheguei dei um abraço muito grande a ela. Esse abraço foi de tanta saudade que sentia por ela.
Quando eu acabei de matar tanta saudade, já era terça-feira.
Eu despedi de minha mãe e dos meus irmãos, e depois apanhei um táxi para a cidade, e calha que o taxista era meu amigo. Quando chegámos à cidade eu sai do carro e fui dar uma volta, quando dei conta já estava no aeroporto.
Fiquei lá sentado durante muito tempo, eu fiquei a lembrar o dia quando levei os meus tios ao aeroporto para eles partirem.
De tanto recordar eu acabei por ficar lá até os passageiros começarem a entrar para a sala de espera.
Eu fiquei com tanta a ansiedade e acabei por também entrar.
Tínhamos que entrar numa fila, só que eu não entrei, eu encostei na porta de entrada e tentei passar atrás da polícia que estava lá. Consegui passar.
O mais difícil já passou foi o que eu disse dentro de mim.
Estava na sala de espera me pediram os meus documentos, que eu não tinha nada comigo nem passaporte, nem BI nem cédula de nascimento.
Como eu não tinha nada comigo eu pedi à senhora para ir à casa de banho e ela me disse para eu ir lá dentro, só que ela me disse para depois voltar para mostrar os meus documentos.
Eu fui e já não voltei para lhe mostrar os papéis.
Fui à casa de banho e acabei por ficar lá dentro à espera que chamassem os passageiros.
Quando chamaram eu segui um homem que trazia duas crianças com ele.
Consegui entrar no avião e também ocupei um lugar de uma pessoa.
Quando cá cheguei, a Portugal, estava no Inverno, calha que eu estava só de t-shirt e um calção e também com uns ténis. Fui logo apanhado.
O meu pai quando recebeu o fax a dizer que eu estava em Portugal não acreditou e acabou por desmaiar, deram-lhe um copo de água com açúcar, ele voltou a ler o fax. Levou o papel para mostrar à minha madrasta. Ela quando viu o fax acabou por ficar paralisada.
A minha mãe quando soube que eu não estava com o meu pai, acabou por fazer um escândalo com ele.
E eu cá em Portugal a gozar a minha vida…e acabei por ficar cá oito dias.
Quando eu fui embora levei dois jornalistas e também dois guarda-costas.
Eu vim sem nada e fui com imensas coisas que me deram: roupa, computador, bicicleta, televisão e até viagens de borla.
Quando cheguei lá em S. Tomé acabei por ficar espantado, tinha tanta gente que me queria ver, tantos jornalistas, eu acabei por ficar muito comovido só por causa de tantos elogios que me fizeram.
O meu pai estava quase a chorar, a minha mãe chorou muito e eu fiquei muito feliz por ter uma fama como essa.
É uma história que eu nunca irei esquecer durante a minha vida inteira!”

quinta-feira, 10 de maio de 2007

70 anos!

A Irmã Elvira faz hoje 70 anos.


Uma vida dedicada a Deus e desde há 35 anos ao serviço da comunidade do Fim do Mundo, acompanhada pela ordem das irmãs salezianas à qual pertence!


O ATL da Galiza foi dar-lhe um beijo e agradecer o seu testemunho de vida.

sábado, 5 de maio de 2007

Finalmente aconteceu!

Depois de um vida cheia de bons e maus momentos, depois de caminhos percorridos por “prados verdejantes” e por negros abismos é tempo finalmente do Sr. Cândido encontrar uma CASA onde rodeado de dignidade e conforto possa finalmente descansar e sentir-se protegido.
O Sr. Cândido chegou há um ano até nós, trazido por mãos amigas com o pedido desesperado de um local para ele poder viver.
O Sr. Cândido era um sem abrigo, sobrevivendo do apoio de "gentes amigas" da comunidade. Chegou até nós sem documentos, sem bens, sem projecto de vida mas com muitas recordações vivas de um passado onde pontualmente as memórias eram felizes e “quentes”.
Durante todo este tempo, o Sr. Cândido, de uma forma humilde, resignada, mas com esperança, marcou pontualmente a sua presença à 4ª feira no ATL da Galiza para ir buscar alguns alimentos ou notícias sobre o seu futuro.
Foi um longo ano para tratar da sua identidade, dos exames de saúde e outros documentos necessários para o seu internamento.
Foi um longo ano, em que o frio, a chuva, o sol e o silêncio foram companheiros inseparáveis deste nosso irmão.
Finalmente e num dia de grande alegria para quem o conhece e com ele tem uma relação de grande ternura, o Sr. Cândido entrou finalmente no Pisão, a casa que desde 4ª feira foi, é, e será a sua casa. Recebido e rodeado de atenções ele está bem.

Obrigado, Pisão!

sexta-feira, 20 de abril de 2007

O orgulho de ser cigano

Segundo dizem os mais antigos, nomeadamente a D. Maria José Duro, moradora na Galiza há mais de 50 anos, o Sr. Domingos e a sua mulher D.Antónia foram os primeiros representantes da comunidade cigana a fixarem-se no bairro. Nos terrenos actuais do Fim do Mundo existia uma quinta vedada com muros de pedras, propriedade da viúva Leal, e foi ali encostada às pedras que aquele casal montou a sua tenda de pano. Com eles estavam os filhos, um deles hoje ainda vivo e a morar no actual bairro, o Sr. Cascavelho.
Nessa altura as mulheres desciam o morro, terreno agreste, cheio de “carrascos” e pedras, para irem à venda. Vendiam elásticos, botões, linhas e nastros e quando voltavam da venda carregavam os cestos com as mercearias já adquiridas. Deste esforço diário veio o nome do bairro e segundo os antigos tudo se deveu à distância que eles tinham de percorrer para voltar a casa: ”Ai filhoooo! Que nunca mais chego lá cima! Isto parece mesmo o fim do mundo!”.
Mais tarde, os primeiros rapazes de então, como o Sr. Cascavelho, começaram a ir trabalhar como caddy’s no golfe do Estoril. Ele lembra-se bem desse tempo e da exigência do próprio pai para que se apresentasse no campo sempre impecavelmente arranjado e de cabelo cortado. Foi no golfe que aprendeu a falar inglês para poder trabalhar com os “camones” e onde conheceu e fez amizade com pessoas tão importantes como o conde de Barcelona.
Muitos Senhores só queriam jogar desde que o caddy fosse sempre um de nós! Ficou muito conhecida a especial aptidão que os homens ciganos tinham para jogar golfe e um deles, o Andaluz, chegou a ser convidado para ir jogar como profissional para Espanha..."

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Histórias de vida de uma comunidade

Relato da vida do Sr. Armando Barros, um elemento da comunidade da Galiza.

"O Sr. Domingos e a D. Albertina casaram-se em Cabo Verde em 1917. O seu 1º filho, Virgílio, nasceu na povoação de S. Domingos, freguesia de S. Nicolau Tolentino, cidade da Praia. De seguida nasce o Sr. Armando Barros e mais quatro irmãos, o Cândido, a Maria da Conceição, a Maria e a Santa.
O pai do Sr. Barros era agricultor, trabalhava no seu terreno (“sítio”) de onde tirava milho, feijão, batata-doce e outros produtos agrícolas. O que tirava da terra era suficiente enquanto houve chuva, mas em 1931 houve uma “faltazita”. Normalmente a chuva começava em Julho e chovia durante três meses.
A partir de 1946 começou a seca que dura desde então o que obrigou muitos cabo-verdianos a abandonar a sua terra.
Além de cultivarem a terra, a família criava gado: porcos, galinhas, coelhos, etc.
O pai e a mãe do Sr. Barros tinham a instrução primária. O gado estava preso na manjedoura e o Sr. Barros antes de ir para a escola, apanhava palha para os animais e só então caminhava quatro km para ir estudar. As casas eram normalmente feitas de pedras e algumas pessoas rebocavam-nas. O telhado era feito de madeiras de coqueiros (barrotes). Quem tinha posses punha palha ou então telhas no telhado...
Com a seca o Sr. Barros foi com o irmão para Angola de barco, onde foram trabalhar para a Companhia de agricultura em Gabela. Porquê? Porque Angola precisava de mão de obra e os cabo-verdianos tinham fama de serem muito trabalhadores pois tinham que aproveitar os três meses de chuva para nas suas terras tirarem o máximo de produtos!»

Nota- O Sr. Barros, recentemente falecido, era pai da Paula, da Mafalda, do Rolando e do Beto, miúdos que em 1987 frequentavam o ATL da Galiza.
Este testemunho dado há muitos anos pela sua esposa é uma homenagem a uma família angolana que, apesar de todas as dificuldades vividas tentou sempre, e com toda a dignidade possível, ser um modelo de família na nossa comunidade.